terça-feira, maio 06, 2008

Pretas, vermelhas, brancas, cor de rosa e alaranjadas, douradas e prateadas, em diversas tonalidades de creme. Estes são apenas os matizes mais comuns. Contudo, as variedades cromáticas não param por aí. É claro que não! Há as azuis, em tons tão diferentes como o turquesa, o aquamarine, o marinho, o petróleo, o autêntico cyan, o deepsky, o dodger e o clássico royal, dentre inúmeros outros. Nos amarelos, o ouro e as variações dos laranjas: dark orange, orange e orange red. Abaixo e acima do magenta, a abundância é impressionante. Para abreviar, poder-se-ia citar o pink, o salmon e o coral, por um lado; e, em uma escala de maior intensidade, os violetas, o fuchsia e o crimson. Há ainda as verdes, com intensidades que podem ir do chartreuse ao escuro mais simples, passando por delícias que viajam do abacate ao oliva. Neste parágrafo das cores, seria criminoso não destacar alguns epítetos que a elas se associam para tornar ainda mais rica e, porque não dizer, inteligente e criativa, a diversificação cromática. É o caso claro do substantivo de dois gêneros “bebê”, que torna azuis, verdes, amarelos e rosas infantilmente licenciosos, quase pervertidos.


Se nas cores a diversidade é ingente, nas estampas ela é infinita. É o que se pode comprovar em qualquer passeio por shopping centers e magazines grandes e pequenos localizados nos centros de cidades do mundo inteiro, exceto, talvez, as urbes islâmicas. Os motivos mais freqüentemente encontrados abusam de florais, bolinhas e outras figuras geométricas, listras verticais e horizontais em várias larguras, imitações de pele animal como a vulgar oncinha, além de detalhes variados e buliçosos de patchwork. Hilariantes também pode ser o uso que se faz das palavras. Já vi de todos os tipos, com idéias que vão do original ao mau gosto mais completo. Alguns exemplos: just do it; ISO 9002; o importante é a beleza interior; cuidado: piso escorregadio; aberto 24 horas (aff!); entre sem bater (aff!, aff!); I ♥ Ponta Grossa (pra não dizerem que sou mal humorada, eu também); obrigada, volte sempre!; se não for pra dar 5, nem tira; prepare-se para momentos de grande prazer; você me ama mesmo ou só quer me comer? Para aqueles dias chamados especiais, em que as amapoas estão de bajé, vi recentemente uma que dizia de modo grosseiro: desculpe o transtorno, entrada pelos fundos.


Quando o assunto são os formatos, o léxico também é admirável. Calcinhas, calçolas, calças, fio dental, asa delta, short doll, stripper, pom pom, a rodriguiana engraçadinha, soutache, lacinho, short lace e a tanga que, em minha opinião, deve vir sempre no diminutivo, o que faz com que este pequeno vocábulo adquira uma consistência hiperbólica, quase epífana: tanguinha! Como não poderia deixar de ser, a chamada lingerie, palavra francesa cuja etimologia é datada do final do século XV, pode ser confeccionada de inúmeros tipos de tecido e até mesmo de materiais sintéticos como o plástico. As mais confortáveis são, sem dúvida alguma, as de algodão, em malha. Mas há também as de poliamida, tule em nylon, liganete, seda, tecidos ambientais e recicláveis.


As chamadas calcinhas comestíveis são feitas de gelatina. Bem fininhas, elas imitam um tecido. Em sex shops, são encontradas nos sabores ordinários: menta, chocolate, morango e framboesa. O material com o qual são manufaturadas também serve, pretensamente, para estimular a prática do sexo oral. Mas nem todo mundo topa utilizar esta aberração sexo-culinária, uma vez que a calcinha comestível é vestida pela mulher como se fosse uma lingerie normal e, simplesmente, vai derretendo aos poucos, conforme os humores secretados pelo corpo feminino. Assim, na medida em que a mamífera é tocada e se excita, a calcinha se desfaz. No cunnilingus, ela pode ser, literalmente, devorada. Em resumo e francamente, apenas os muito pobres de espírito e imaginação soem recorrer a tais artifícios como estimulantes. Eu já provei algumas vezes, por sugestão de parceiros pouco dotados de criatividade ou bêbados. Trata-se de algo espetacularmente abominável!


Quanto às marcas, há as de sempre – como Valisère, Liz, Plié, Darling, Valfrance, Du Loren, De Millus, Hope – e aquelas um pouquinho mais requintadas, como Federica, La Perla e Eva Milano. Para meu estrito uso pessoal, prefiro as coleções de Victoria’s Secret, capazes de reunir novidades e frivolidades do mundo fashion sem perder a qualidade e, sobretudo, sem exagerar no preço. Creio que uma calcinha classuda é aquela capaz de excitar quem queremos excitar sem provocar duas reações imperdoáveis quando o assunto é intimidade. Ou seja: uma lingerie não deve fazer com que nos sintamos ridículas, mesmo que o consorte não se sinta assim; e também não deve nos parecer desconfortável, como se usássemos um cilício. Além disso, neném, há o fator custo-benefício que, nos dias de hoje, não deve ser nunca depreciado.


Lingeries são o meu fraco. Pra dizer a verdade, sempre foram. Sei disso desde mesmo muito mal em minha mocidade. São poucas as lembranças que guardo de minha infância mais tenra. A primeira delas, como já disse, são as das pernas daquele homem encolhidas e enoveladas entre as minhas: quentes, trêmulas e, quem sabe, úmidas. Outra é de Isaura me dando uma surra porque eu me negasse a recitar de cor, mesmo sabendo, a escalação completa de determinado time de futebol. Finalmente, e sem hesitação a mais feliz, é de como eu esperava todas as tardes a ida de Isaura à padaria para, durante o curto tempo em que ela lá se demorava, correr até certa gaveta, retirar dela alguma calcinha sedosa e cheirá-la, esfregando-a no rosto até a exaustão mais desesperada e completa. Apesar de ser uma idiota pusilânime, minha mãe tinha sua dose de bom gosto. Uma das maneiras de seduzi-lo eram, estou bastante segura, todas aquelas calcinhas e sutiãs cheirosos, macios e sedosos, quase indecentes.


Ah! Como eu me deliciava com cada uma daquelas texturas e odores durante o intervalo em que ela ia comprar o leite e o pão. A idéia principal era vestir uma de suas prendas rendadas, colocar-me à frente do espelho e admirar meu corpo imberbe, acrescentando com a imaginação aquilo que a realidade e a ciência ainda traziam impossível. Mas isto era completamente impraticável. Temia que Isaura chegasse e me flagrasse naquela luxúria inominável. Portanto, o único que eu podia fazer era mesmo imaginar. Esfregar sedas e algodões em minha face e sonhar, inventando nesta cabecinha de maravilhas uma menina levada, letrada e linda, vestida apenas com uma calcinha Victoria’s Secret e com seus dois limõezinhos de fora.


Nada de costelas, pensava eu: uma mulher pode sim começar a ser planejada com umas simples calcinhas e uns peitinhos diminutos.

2 comentários:

Alice disse...

Umas simples calcinhas e peitinhos diminutos, num minuto, com ou sem odores, com ou sem pudores. Para todos os gostos e rostos, bizarrices e patifarias. Se até Fenômeno que é fenômeno gosta...

Anônimo disse...

Calças...calçolas...calcinhas...ou tanguinhas...não importa o nome...muito menos a embalagem...o que vale é o conteúdo...e nem tudo que reluz é ouro...bjos a ti amado!