quinta-feira, dezembro 16, 2010

JOAQUIM MORREU EM SETEMBRO

Era uma vez...
Era uma vez dois boêmios, ambos aposentados e afinados com as coisas da vida. Amizade vinda das filas do INPS e prolongada nos botecos do alto do bairro Carlos Prates.
Um se chamava Tonico, pai de três graciosas Marias, ex-bancário e metido a literato. Bené se chamava o outro, funcionava como pintor de retratos e encomendas como anunciava uma tabuleta no portão do seu barraco.
O mundo de Tonico começava em sua residência e variava pelas rodinhas de aposentados na Praça Sete. O mundo de Bené se resumia em três pequenos cômodos no Carlos Prates, sem ninguém por que se preocupar, num desligamento total das convenções sociais. Recebida a aposentadoria, perambulava pelas cachaças e torresmos da rua Padre Eustáquio. Depois, quando sentia o dinheiro minguar, passava pelo armazém e sortia a dispensa. Acontecia, então, a hibernação mensal: Bené se consumia em pinceladas e atividades domésticas.
A bebida fez o acerto final na amizade. De copo na mão, os dois se entregavam a divagações artísticas e filosóficas destituídas de qualquer preconceito. Quadros e roupas espalhados pelas paredes revelavam uma novidade em matéria de mostra artística. A mobília era simples, coisa de segunda mão e harmonizava-se com as bugigangas e apetrechos de pintura. Fora do barraco as coisas não eram melhores; o quintal, um espaço de sessenta metros quadrados, era um verdadeiro caos. Um pé de manacá se encostava medroso no canto do muro, como se temesse conviver com aquele mundo plebeu de mato e lixo. Era assim o mundo do pintor.
Corria o oitavo dia útil de setembro, e os dois amigos marcavam passos em direção ao caixa do posto bancário, a fim de receber seus proventos mensais. A fila começava no portão do posto e, como uma jibóia gigantesca, serpenteava monótona pela rua Guajajaras abaixo, desaparecendo na esquina da rua Rio de Janeiro e tomando um rumo que somente Deus poderia saber.
Para enfrentar aquela calmaria, Tonico se arrastava, passo a passo, sabiamente prevenido com um romance de Alexandre Dumas. Tonico se desligava daquele marasmo se afogando em “Os Três Mosqueteiros”. O tilintar das armas falava mais alto do que a poluição sonora das adjacências. À sua frente, para sermos mais exatos, ocupando o 711º lugar da fila, de cigarro aceso e olhar perdido nas inconsequências do mundo, se encontrava o parceiro de goles e torresmos, o Benedito.
E, justamente, quando Tonico mais se emocionava com as façanhas dos valentes espadachins, foi trazido, por uma voz rouca, à realidade de 1978. Aconteceu que aquele mundo encantado de cardeais, duques, condessas, capas e espadas, carruagens em loucas disparadas, castelos e majestades, se viu milagrosamente transformado em gente e coisas de BH. Meganhas substituíam garbosamente os guardas do rei, e, com seus cassetetes-família, policiavam a fila dos humildes aposentados. Perto dali, em frente a um estacionamento de veículos, marginais, livres, alegres e descontraídos, esperavam confiantes a passagem dos incautos aposentados para compartilhar da mixaria recebida.
Mas voltemos à voz rouca.
- Benedito! - exclamou o desconhecido, bastante suado, carregando uma sacola cheia.
- Mundico! - correspondeu Bené.
O recém-chegado tinha os olhos esbugalhados e sonolentos e lembrava muito a gente nascida nas caatingas do nordeste. Como se fora um enviado do destino, foi direto ao assunto:
- Foi Deus quem me trouxe aqui!... Fui ao mercado e não sei por quê, resolvi mudar de caminho... Ora, vejam só... - disse Mundico ao mesmo tempo em que colocava no chão a sacola de compras. Em seguida, meteu a mão no bolso traseiro, retirou um lenço azul desbotado e, como se fosse uma toalha, enxugou o rosto suado. Feita a toalete, continuou: - Joaquim está mal! Muito mal, mesmo! Acho mesmo que não passa de hoje!
Bené se assustou.
- Joaquim? Joaquim Sabugo? O Joaquim do cinema?
- Ele mesmo!
- Está em casa, Mundico, ou internado nalgum hospital?
- Em casa. Continua morando no mesmo lugar, nas beiradas do bairro Alvorada com a vila São José.
- Sei onde é - disse Bené - já fui lá diversas vezes.
Depois, não se sabe por quê, a fila movimentou-se e numa bem-aventurança bíblica, proporcionou às pernas cansadas dos aposentados uma andada de sete passos. Mundico, sentindo que não poderia acompanhar aquela losna, de sol na cara e sacola cheia, tirou o time.
- Bem... pico a mula... depois a gente se vê no enterro...
- Recebo a mixaria e dou um chego até lá - prometeu Bené.
Tonico se solidarizou com o amigo:
- Notícias más, pelo que acabo de ouvir...
- De doer! - concordou Bené. Joaquim é um velho amigo dos tempos de molecagem, das fitas-em-série... Uma jóia de gente!
- É um troço chato! - disse Tonico.
- Pego a grana, espanto o calor com uma gelada e vou lá.
- Vou com você - prometeu Tonico.












Joaquim, em dia de Clark Gable


Em caminho, Bené ilustrou a cachola do amigo com recordações e coisas da vida do Joaquim.
- O amigo Sabugo trabalhou a vida inteira nos cinemas. Pelo que sei fez de tudo, porteiro, operador de filmes, bilheteiro, gerente e, por último, estava na programação. Quando menino era um tremendo e viciado frequentador do Cinema América, hoje Cine Tamoio.
- O antigo “cinema poeira”? - indagou Tonico. Também fui um terrível frequentador de sua segunda classe, a dos bancos, separada por uma grade... A segunda classe era barra pesada e lugar preferido dos vendedores de jornais.
- Isto! - concordou Bené. Os antigos jornaleiros davam medo! Uma vez vi um ranca entre eles e os guardas-civis, perto do Cine Roxy, ex-Democrata. Foi uma correria de guardas!...
- Pois, Tonico, a minha amizade com o Joaquim vem desse tempo.



O barraco do Joaquim ficava no fundo do lote. Ramagens de melão-de-são-caetano cobriam a cerca de arame farpado. A partir do portão de madeira, um caminho irregular abria passagem no meio das plantações. Canteiros de couves, cebolinhas, salsas, margaridas, malmequeres, roseiras, um estaleiro de chuchu e do lado esquerdo, junto ao barraco, uma mangueira... A varanda do barraco tinha também o seu encanto: vasos de flores, folhagens, samambaias e, enroscada nos caibros, uma trepadeira amorosa fazia presença. Canários chapins, belga, um coleirinha, um sabiá e um passo-preto em gaiolas de taquaras, se misturavam aos verdes, completando a ornamentação da varanda. Do lado direito, quase escondida por um manacá florido, aparecia entijolada a parte superior de uma cisterna. Mais adiante, na mesma direção, a coberta do tanque de lavar roupas. Espalhados pelo quintal, corriam varais enroupados, dando um toque especial e bonito ao terreiro. Pardais em algazarras tentavam abafar o canto agradável dos passarinhos engaiolados. Era impossível imaginar que no meio de tanta simplicidade e beleza, uma pessoa pudesse estar vivendo seus derradeiros momentos.
Na varanda encontraram a mulher de Joaquim com a vassoura na mão. Bené foi logo reconhecido.
- Aqui em casa tá uma tristeza - disse Verônica chorosa. Meu homem num tá lá essas coisas... O médico da associação saiu daqui agorica mesmo e preparou a gente pro pior... Já mandei telefonar pros meninos no Rio, mas, não sei se chegarão a tempo. Num é do meu gosto, mas já ando remexendo as gavetas procurando certidão... Num tem uma hora, eu tava lavando o terno do Joaquim... misturando as águas dos óios com as águas do tanque.
- Mas, o que aconteceu com o amigo Sabugo? É coisa ruim assim? - indagou Bené.
- Pra falar verdade, nem o doutor tá sabendo. A gente pergunta: é caruncho no pulmão? Ele diz que não. A gente torna a perguntar: é troço do coração? O doutor mexe com a cabeça dizendo que não. Então, a gente no desespero e valentia pergunta: é a doença do doutor Laureano? Aí, o doutor olha a gente pensativo e responde: não. Não é câncer. Acho mesmo que nem ele sabe.
Sem apresentar uma prostração moribunda, Joaquim estava de travesseiro alto e dava impressão de quem estava mais pra cá do que pra lá. Quando ele deu com os olhos nas visitas, apertou os lábios e depois de olhar o amigo Bené, esboçou um sorriso de criança feliz. Revigorava.
- Eu sabia... - disse com voz sumida. Eu sabia que você não faltaria ao meu “The End”.
Bené entendeu e consolou:
- Que “The End” coisa nenhuma! Você ainda tem muito seriado pela frente!
Tonico foi apresentado. Verônica arrastou cadeiras e acomodou as visitas de modo a favorecer a conversa.
Por dentro, o barraco de Joaquim era quase um cinema doméstico. Por toda parte retratos de astros famosos espalhados pelas paredes. O quarto do casal, principalmente, lembrava as distribuidoras de filmes ou mesmo as salas de espera dos antigos e bons cinemas. Fotografias de grandes artistas se misturavam com as fotos familiares. São Jorge lutava destemidamente com o dragão, graças a Deus, devidamente protegido por Buck Jones e Ken Maynard. Leslie Howard sorria feliz junto a sua Julieta, a inesquecível Norma Shearer. John Wayne, vestido de árabe, estava secundado pelos três invencíveis mosqueteiros, da Legião Estrangeira. Joaquim e Verônica, alegres e felizes no apagar das luzes da década de quarenta, num retrato colorido e emoldurado de vendedor ambulante, vizinhavam com Greta Garbo e Ann Sheridan. Num cartaz em cores, de porta de cinema, cuidadosamente protegido por um plástico, negro como a noite, equilibrando-se sobre as patas traseiras, numa postura feroz e aureolada, aparecia o fantástico “Rex, o Rei dos Cavalos Selvagens”. A janela, meio aberta, mostrava uma penca de mangas sapatinha sobre o fundo azul do céu.
Mas o retrato de John Wayne puxou o olhar de Tonico. Tonico sorriu e comentou:
- Vi esse seriado numa “Matinê Colosso” no antigo cinema Avenida.
- Esta cena - aparteou Joaquim - me lembro perfeitamente, foi no momento em que John Wayne descobriu a identidade do misterioso “El Shaitan” do deserto.
Depois, Verônica apareceu com um prato de sopa, sopa feita pra criança, com macarrão letrinha, cebolinha, salsa, pedacinhos de couve rasgada e engrossada com fubá da roça. Joaquim sorriu animado. Depois Verônica falou às visitas:
- Vou preparar alguma coisa pra vocês...
- Não se incomode, dona Verônica. Já fizemos um lanche - disse Tonico.
A sopa fez Joaquim suar. Quando Verônica retirou o prato vazio, Joaquim mergulhou num sono profundo. Tonico e Bené disso se aproveitaram, passaram pela sala e foram conversar na varanda. Também a sala, imitava o quarto. Luís Jouvet, Viviane Romance, Marilyn Monroe, Simone Simon, Ronald Colman, Ingrid Bergmann, Chaplin, Leonardo Vilar e muitos outros, marcavam sua presença, se misturando com Jesus no Monte das Oliveiras e fotos dos filhos do casal.
- Ficamos mais um pouco? - perguntou Tonico na varanda.
- Joaquim é um velho amigo e não seria justo abandoná-lo numa hora destas. Se quiser ir embora, não se preocupe.
- Por mim fico também - disse Tonico. Vou ao boteco e telefono avisando a minha dona.
Mais tarde, com os ponteiros rondando o meio-dia, os dois amigos voltaram ao quarto. Joaquim dormia tranquilo. Mas a algazarra dos pardais acabou por despertá-lo. Sorriu, dando de cara com as visitas.
- O sono te fez bem - animou Bené.
- Está com outra cara - emendou Tonico.
- Me sinto mais animado - concordou Joaquim. Acho que a presença de vocês me fez muito bem. Pra falar verdade, não estou sabendo o que se passa comigo. Até há pouco tempo tudo parecia bem... de uma hora pra outra o médico me enquadrou num regime e remédios e me empurrou pra cima da cama.
- Quando menos se espera... - aparteou Bené.
- Parece-me que tudo começou no dia em que assistia a demolição de um cinema.
- Acabar com cinemas virou moda - disse Tonico.
- Estão fechando quase tudo - falou Joaquim. Somente aqui em Belo Horizonte fecharam mais de uma dezena. Pelo que sei, no resto do mundo a cena se repete.
- É a vitória da TV - disse Bené. Hoje, cada um tem o seu cinema doméstico.
Joaquim sorriu amargurado.
- Concordo. É isso aí! Cinema sem aviso de campainha, sem pipoqueiro... disse Tonico.
- E sem mãos se apertando... - pilheriou Bené.
Joaquim voltou a conversa.
- Outro dia a insônia me pegou e o jeito foi fazer companhia a Verônica na TV. Pra ser sincero, nunca me dei bem com a TV. Por sorte ou talvez por azar, a televisão mostrava um filme com a minha adorada, minha atriz favorita, a inesquecível Greta Garbo. Sucesso tremendo de outra época, “Ana Karenina” se desfigurava na TV...
- De acordo - disse Tonico. A dublagem não pega bem.
Joaquim se animou com o apoio:
- Vocês já imaginaram Greta Garbo naquela cena monumental de “A Dama das Camélias”, depois de ouvir Leonel Barrymore esclarecendo sobre as inconveniências do seu romance com Roberto Taylor? Ela se desespera numa argumentação maravilhosa mas... usando a mesma voz de quem há bem pouco se fazia ouvir como Vilma Flintstone ou Olívia Palito!... - argumentou Joaquim.
Todos riram.
- E tem mais... - continuou Joaquim - naquele exato momento em que o telespectador enfeixa todos seus nervos, concentra suas emoções, para ver e ouvir Ana Karenina contar ao seu amor, o grande Frederic March, como foi que seguindo os moldes de uma época arcaica e arbitrária, tinha sido levada ao altar... Naquele momento em que muitos se reencontram dentro de suas próprias vidas e misérias, naquele justo segundo... aparece a sigla da TV... faz o seu “cri-cri” anunciando que chegou a hora dos comercias... é claro que a sequência das emoções vai pro brejo!...
Todos riram novamente.
- As emoções se dissipam pelas salas como a fumaça dos cigarros dos comerciais - falou Bené.
- Falou bonito - apoiou Tonico.
- Vocês já pensaram que mistura mais esquisita, essa de cigarros, temperos, Marilyn Monroe, extratos de tomates x Ingrid Bergman, Modess x Jean Gabin... - arrematou Joaquim.
Depois Joaquim suspirou e todos se assustaram.
- Não se preocupem comigo. Estou bem - tranquilizou Joaquim.
- Bem como nos tempos de... “E o Vento Levou”! - caçoou Bené.
Joaquim sorriu.
- Boa lembrança! Foi uma época importante na história do cinema, uma espécie de despertar para super-produções. Vi... “E o Vento Levou” quarenta e oito vezes! - exclamou Joaquim.
- Meu Deus! - berrou Tonico. Quarenta e oito vezes?
- Espera, aí, meu recordista... Quarenta e oito vezes!... Isso multiplicado por quatro horas de cada exibição... não, Joaquim... essa não! - falou Bené entrando na briga.
Joaquim achou graça.
- Onde está o exagero? Esquecem que esse era o meu trabalho? Fui operador de filmes por mais de vinte anos. Enquanto a máquina rodava, eu via o filme pelo buraco da cabine. É isso aí, amigos.
- É uma questão de estômago - disse Bené.
- Mas todos serviços não são iguais? Uma repetição sem fim? - argumentou Joaquim. Por outro lado sempre adorei filmes. Nunca via o mesmo filme da mesma maneira. Explico: a primeira vez, assistia no normal, como todas as pessoas. Na sessão seguinte, já curtido emocionalmente, eu me prendia somente no jogo das cenas, esquecendo as legendas. Na outra vez, lá estavam os meus olhos buscando unicamente as figuras principais... depois, observava somente o fundo ou os artistas secundários. A retratação de uma época me entusiasmava tanto quanto o enredo. O ambiente, é sempre uma fonte de conhecimentos, de cultura. Naquelas observações variadas, quem ganhava com isso eram meus filhos... quando em minhas noites de folgas os embalava com as maravilhas do celulóide.
Tonico ameaçou um desmaio.
- Meu Santo Antônio! Isso pra mim já é tara! Além de ver o mesmo filme quarenta e oito vezes, ainda fazia uma sessão doméstica!
A conversa fazia muito bem a Joaquim. Ninguém, que visse aquela animação, poderia imaginar que daquela rodinha um estava de carta marcada. Verônica fez presença com café e biscoitos fritos. Tonico em absoluto acreditava nas previsões de um final próximo de Joaquim. Vez por outra ouviam-se vozes procurando notícias de Joaquim.
Joaquim divertiu os amigos com seus conhecimentos, com sua excelente memória.
- Descrevo para vocês uma cena vista há mais de trinta anos... uma cena de um filme estrelado por Eric von Strohein e Greta Garbo. Eric von Strohein, vestido com um robe escuro, empunha uma pistola. Greta Garbo, num vestido preto de duas peças, tem o olhar fixo no companheiro e se apoia com a mão direita na maçaneta da porta; a mão esquerda parece encontrar a sua melhor posição sobre a coxa. No fundo, visto pela abertura da porta, sugerindo uma sala de espera, aparecem uma cadeira ricamente trabalhada, estatuetas sobre uma pequena mesa, pela parede, um quadro a óleo retratando Napoleão Bonaparte, a cavalo numa arrancada militar...
- Bravos, Joaquim! - aplaudiu Tonico.
Pelas paredes, velhos astros assistiam aos prodígios de Joaquim. Depois, aconteceu outro sono, e os dois amigos se afastaram novamente. Foram ver Verônica na cozinha. Preocupada com o marido, ela disse:
- Vocês viram a animação do Joaquim depois da sopinha? Viram como estava alegre? Estou preocupada com isso. Dizem que quando um doente desenganado melhora, dando impressão que maldita bateu asas, se mandou pras cucuias, é (e Verônica fez um sinal da cruz) um péssimo sinal. Dizem (Deus me perdoe) é sinal de morte!
- Bobagens, dona Verônica - consolou Bené - Joaquim melhorou porque já era hora. Vai ficar bom, e pronto!
- Tomara! - esperançou-se Verônica enxugando as lágrimas.
- Joaquim é forte e vai sair desta - ajudou Tonico.
Os dois amigos ainda prosearam com Verônica. Mais tarde se distraíram observando Verônica rodopiar pelo quintal recolhendo as roupas. Quando retornaram ao quarto Joaquim despertou. Joaquim sorriu triste.
- Sentem-se. Deixei vocês na berlinda, falando sozinhos. Perdão pela minha má educação - desculpou Joaquim.
- Era só o que faltava! Joaquim se desculpando - disse Tonico.
Joaquim consertou o corpo, aprumou o peito e recomeçou:
- Dormi um bocadinho e me pareceu uma eternidade. Sonhei com tanta coisa bonita. Nós conversávamos sobre TV, cinema, Greta Garbo... eu acho que foi essa a razão do meu sonho.
- Será que não estamos aborrecendo? - perguntou Tonico.
- Nem por brincadeira pensem nisso - disse Joaquim.
Na cozinha, Verônica ajeitava uma calça para passá-la a ferro. Na parede, o Gordo e o Magro emoldurados faziam companhia a Verônica. Depois, ela sentiu uma alteração na conversa no quarto e, aflita, foi conferir.
- Valei-me, meu São Judas Tadeu! - exclamou. Felizmente observou que tudo estava bem. A conversa era sobre os deuses. Verônica interrompeu:
- Vim saber se trago mais café e biscoitos?
- Não se preocupe - agradeceu Bené. Fica pra mais tarde.
E voltaram ao assunto.
- A antiguidade - continuou Tonico - está cheia de referências aos deuses. Os deuses protegeram Ulysses... Platão também fala deles... A China antiga, então... segundo Heródoto, os deuses pareciam influenciar os acontecimentos terrestres... Os deuses fizeram isso... os deuses fizeram aquilo... Como duvidar dessas afirmações, se foram ditas por gente do maior respeito? É uma realidade que chegou aos nossos tempos mas que não consigo entender.
- Mas, afinal o que seriam os deuses da antiguidade? - indagou Bené.
- Assisti muita fita a respeito - ajuntou Joaquim.
Dito isso, Joaquim bocejou e dormiu novamente. Desta vez os dois amigos se mantiveram no quarto, num silêncio absoluto de vigília hospitalar. Lá fora, brisa fresca soprando e agitando os verdes. O sol tombava, projetando sombras. Os momentos passaram até que Joaquim despertou.
- Vocês falavam em deuses... Matei a charada enquanto dormia. Pareceu-me que sonhei qualquer coisa a respeito. Entretanto, sei que o meu sonho estava misturado com pensamentos antigos... São ideias antigas que careciam de base, ainda mal definidas... Agora, porém, me parecem claras. Vocês falavam de deuses. Posso afiançar que não são deuses. São diretores do cinema celeste!
Tonico e Bené se entreolharam espantados. Será? Será que o amigo Joaquim endoidara? Bené quis tirar a limpo:
- Como? Que negócio é esse de diretores do cinema do céu?
- Explico - disse Joaquim. No além os deuses gostam e têm também o seu cinema. Uma tela enorme se descortina diante deles, no meio de milhões de estrelas, uma tela muito maior do que a do cinemascópio. Pois é. Os do além se sentam em suas nuvens particulares, como se acomodassem em poltronas... Acontece que os filmes são reais e se desenrolam aqui na terra. Ao vivo, quero dizer. Lá em cima tudo pode acontecer, tudo cheira a mágica, a milagre...
Depois, Joaquim silenciou dando impressão de cansaço e procurou se recuperar.
- Seu modo de ver as coisas é interessante - disse Bené.
- Concordo - apoiou Tonico. É original.
- Vocês querem que eu me explique melhor? Não estou amolando?
- Pelo contrário. O assunto é fascinante. Pode mandar brasa! - disse Tonico.
- Alegre, Joaquim sentiu-se prestigiado.
- Pois é. tudo que acontece aqui na terra pode ser mostrado na tela celeste. Os deuses, ou melhor, os diretores celestes têm sua participação nos acontecimentos terrenos... Por possuírem esse poder é que são chamados de deuses. Conto meu sonho para melhor entendimento. Quando sonhava vi o cinema do espaço. A plateia vivia uma expectativa ansiosa, pois o diretor era uma espécie de Fellini do Além. Antes de prosseguir faço uma ressalva. Um enredo que aqui na terra tem a duração de uma vida inteira... lá pra eles, que são eternos, não passa de uma sessão das seis às oito...
De repente, Joaquim se alterou causando “suspense” nos dois amigos. Verônica pressentiu qualquer anormalidade e veio apressada. Encontrou o marido excitado.
- Verônica, querida, busca cervejas pra nós. É preciso comemorar!
Todo mundo achou que Joaquim endoidara.
- Você quer mesmo? Quer que dou um pulo no boteco do Hugo e busco bebida? - perguntou Verônica.
- O mais rápido possível! - exclamou Joaquim.
O final de Joaquim era de fato um final de cinema. Recordava as grandes cenas, com mocinhos baleados mortalmente, mas que, mesmo assim, ainda têm tempo para tudo; de revelar o lugar da mina de ouro, o nome do bandido mascarado que assaltou o banco, de esperar a carruagem em louca disparada, trazendo a mocinha para o beijo final... Mas o pedido feito a Verônica descontrolou os dois boêmios. Obediente, a mulher reapareceu trazendo a encomenda num balaio de taquara. Joaquim sorriu agradecido. Em seguida todos ficaram de copo na mão.
- Como dizia - disse Joaquim - os celestes sentados confortavelmente em suas nuvens, esperavam ansiosos o início do filme. Aí, então, o diretor ficou de pé, pediu silêncio e esclareceu:
- O filme se desenrola em BH nos anos cinquenta.
No mesmo instante, como acontece aqui embaixo, ocorreu a apresentação do filme: “A Celeste Picture” - dizia o bonito letreiro - apresenta “A História de Haydée”.
Haydêe era uma belezura de dezoito anos. Todos ficaram maravilhados. Não sabiam que na terra morava uma moça tão bonita! Vocês entenderam - esclareceu Joaquim - que o filme era ao vivo... uma espécie de documentário sujeito às vontades do diretor.
Num cenário romântico acontece o encontro de Haydée e seu amor. Os dois, através de carinhos e juras, revelam uma paixão profunda. Os espectadores celestes repelem aquele “água com açúcar”. Acontecem as vaias e todos exigem ação; desejam uma sequência capaz de contrariar aquela perspectiva de um “happy end”. “Queremos ação!” - berram eles.
- Não dá pra entender! - exclamou Tonico. Explica esse troço direito, Joaquim.
Joaquim sorriu satisfeito com o efeito de sua narração.
- Explico. Os celestes são de outra dimensão e por isso morrem de inveja com aquele amor terreno. Vivem uma eternidade destituída de emoções, mesmo de amor. Quando acontece um beijo, ouve-se um oh! de indignação. - “Enredo! Ação!” - urram desesperados. As nuvens chegam a tremer com a manifestação, e lá longe os trilhões de estrelas piscam medrosas. O diretor celeste pede calma. Constantemente percebe-se a chegada de anjos. Os anjos não precisam de nuvens e se acomodam no espaço movimentando graciosamente suas asas.
Todos encheram os copos novamente, e Joaquim prosseguiu numa desinibição das mais agradáveis. A sua euforia era tamanha que se tinha impressão de que os fluídos da eternidade se misturavam com os fluídos alcoólicos, provocando um êxtase de que somente desfrutam os deuses ou gênios.
- Mas - continuou Joaquim - a plateia se mostrava revoltada, uma revolta destituída de emoção. O diretor joga com seus poderes e influencia os acontecimentos que envolvem os dois apaixonados. Uma intriga é forjada. Uma mulher entra em cena e, pouco a pouco, Haydée vê ruir seus sonhos de felicidade. A plateia aplaude delirantemente o fracasso do romance.
- Que bandidos! - xingou Bené indignado. Que raça ruim!
- Calma, Bené - pediu Joaquim. Você não entende que a fita é uma vida inteira? Haydée é corajosa e inteligente. Consegue superar o fracasso amoroso e parte para outro romance. Mas... meus amigos, a “Celeste Picture” está atenta e determina novos acontecimentos. O diretor é genial e novas situações são criadas. Os fracassos se sucedem para maior alegria da plateia. Entretanto, os espectadores sentem admiração pela coragem e persistência de Haydée. Parecem até que se conformam com um final feliz para a mocinha.
- Também - desabafou Tonico - já era demais! A barra já estava mais do que pesada!
- Não é bem assim - advertiu Joaquim. O diretor prepara o auge do filme. Capricha na criação de um ambiente adverso. A valente Haydée reúne todas as suas forças e se renova. Aparece maravilhosa num vestido estampado, decotado. O seu novo amor está encantador. Lord, mesmo! O filme parece ganhar novo interesse. Tal é o desenvolvimento do enredo, sugerindo um “happy end” que a plateia teme uma traição do diretor. - “Ação! Ação!” - exigem com violência. Acontece uma vaia tão forte, tão tremendos são os assobios que os anjos se desequilibram por instantes. O diretor é genial e já foi premiado muitas vezes. Levanta os braços e pede calma. Como nos filmes de grandes intrigas, envolvendo mocinha, mocinho e vilão, acontece uma revelação das mais terríveis: o novo amor de Haydée é comprometido e chefe de uma família numerosa!
- Pelo amor de Deus, Joaquim - revoltou-se Bené - Chega!
- Filme é filme - retrucou Joaquim. Todo filme tem o seu princípio e seu fim. Se quiserem fico por aqui...
- Nada disso! - disse Tonico. Bené gosta mesmo é de filme água com açúcar. Por mim pode ir em frente.
- Masoquistas! - berrou Bené.
Joaquim apenas sorri ante a indignação do amigo e continua:
- Como dizia, diante da cruel revelação, Haydée se desespera, parece entregar os pontos. A plateia aplaude de pé. Envaidecido o diretor celeste perde a noção de dignidade e inicia uma verdadeira blitzkrieg contra os sentimentos e aspirações da mocinha. As complicações surgem a cada instante. Haydée parece viver um seriado de amor, qualquer coisa parecida com “Os Perigos de Paulina”, de certa forma, quero dizer. Um episódio termina com uma doença; outro com uma traição; outro com um desmoronamento familiar; ainda um outro com uma péssima situação econômica... e por fim...
- Escuta, Joaquim - revoltou Bené - E... o Chefão de Tudo, o Todo-Poderoso, onde fica diante de tanta injustiça do céu?
- Esqueci-me de dizer que o Criador estava presente assistindo às desventuras de Haydée. Com sua barba brilhante e prateada, não se emociona nem se perturba. Chega mesmo a sorrir. Ele sabe que aquele filme é apenas uma sessão da seis às oito, e que depois Haydêe receberá seu Oscar... sua recompensa final.
- Bravos, Joaquim! - exclamou os dois amigos a uma só voz.
- Mas... - continuou Joaquim - ainda aconteceram muitos episódios sem que Haydée fosse amparada pelo mocinho. Um letreiro adverte que muitos anos passaram. Desiludida acaba por se ver inteiramente deformada pela adversidade. Desengonçada, feia, aparentando mais uma caricatura, surge a outrora e formosa Haydée. A plateia se endoida numa euforia sem limites e o diretor é vivamente aclamado. Acontece o final da sessão das seis às oito e o ... “The End”.












Joaquim: "À saúde do diretor do meu filme!"


Joaquim s
ente-se feliz com o sucesso de sua história. Depois, para espanto dos presentes, ergue o seu copo de cerveja, apruma o corpo e faz um brinde:
- À saúde do diretor do meu filme!
Chocam-se os copos.
- O seu filme? - perguntou Verônica que, dada a sua simplicidade, nada entendia daquelas considerações filosóficas.
- Sim, Verônica. O meu filme! Tenho certeza de que os diretores do cinema celeste consideram que, sem chegar a ser um artista genial, procurei desempenhar bem o meu papel.
Dito isto, Joaquim entristeceu e seu olhar, como se fora uma câmera móvel, passou em revista o quarto, as fotos e a nesga azul do céu limpo de setembro.
- No começo de nossa vida em comum, eu e Verônica morávamos num barraco, uma miséria de moradia, um troço bem aproximado das coisas de favela. Não me deixei abater por isso. Penetrava em minhas misérias como Carlitos nos pardieiros, nos terrenos baldios... Amava Verônica com o mesmo romantismo dos antigos filmes de amor... Enfrentava as minhas dificuldades com a valentia dos mocinhos das fitas-em-série... Sempre procurei um final feliz para meus esforços... As más fases, eu as considerava como episódios de seriados que seriam sempre vencidos nas próximas semanas...
Novamente escutou-se o tilintar dos copos.
- O cinema - prosseguiu Joaquim - me ajudou muito a viver. Sempre tinha diante de mim determinada cena ou a imagem de um artista a me servir de exemplo. O cinema e a minha vida... era quase a mesma coisa.



Entretanto, Joaquim se mostrava cada vez mais cansado, mais abatido.
- Podem acreditar. Estamos sendo cinema nos píncaros celestes. Assim como no filme de Haydée, estão assistindo neste momento, em sua sessão das seis às oito, ao meu filme. Vocês são apenas pontas em minha fita, assim também, como fui a mesma coisa em outros filmes... Mas parece-me que vejo num espaço sem fim de estrelas, uma tela enorme, bem maior do que a de cinemascópio, a “Celeste Picture” apresentando, em avant-première, “A História de Joaquim”... Em meu filme não há grandes cenas e, dada a minha humildade, ninguém pede ação ou enredo... Todos são unânimes em considerar que procurei sempre desempenhar do melhor modo possível, o meu papel... Se não ganhei aplausos, por outro lado, as vaias não se fizeram sentir... Por isso, ergo o meu copo novamente e com toda alegria que me é possível, brindo ao diretor do meu filme: À sua saúde, De Mille celeste!
Depois, Joaquim olhou demoradamente para os dois aposentados e agradeceu:
- Foi muito bom que vocês viessem me dar forças, viessem assistir ao meu “The End”.
- Bobagem, amigo Sabugo. Pensamento positivo - animou Tonico.
- Joaquim está com frescura... sabe que amanhã estará de pé, joia, joia como nos tempos da segunda classe do cinema América... - arrematou Bené.
- Obrigado a vocês dois, à Verônica, à vizinhança... Entretanto, sinto que não adianta mais. Já sinto o meu filme riscando...
E Joaquim, como todo artista responsável, se preparou cuidadosamente para um “close”. Fez mais um esforço e manteve-se empinado. Depois, o copo caiu-lhe da mão e ele teve o seu “The End”.



Aconteceu que mais um pouco e toda vizinhança ficou sabendo do final de Joaquim. Bené agarrou a certidão e foi providenciar o médico. O doutor da associação apareceu e providências foram tomadas. Pela tardinha, quase ao escurecer, a casa estava em ordem e as coisas arrumadas. Os filhos chegaram para as despedidas. Bené e Tonico foram curtir suas emoções no boteco mais próximo. Depois, no entanto... Bené se lembrou de que era um pintor de retratos e encomendas, e Tonico se lembrou também de que era metido a entender de literatura... capaz de criar frases bonitas e bem acabadas...



No dia seguinte, uma linda tarde de setembro, Pingão, um coveiro do “Cemitério da Paz”, onde Joaquim foi enterrado, achou de dar uma perambulada pelas adjacências mortuárias. De pito acesso e olhar perdido, assustou-se com as homenagens amontoadas na sepultura de Joaquim. Era tudo um amontoado de flores e faixas.
- Puxa vida! - exclamou Pingão. Deve ter morrido algum campeão de futebol. Nunca vi tanta faixa!
E Pingão curioso cismou de passar em revista todas aquelas homenagens. Deu uma tragada no cigarro e foi lendo as manifestações escritas nas faixas:
“A meu amigo Joaquim, lembranças de Kirk Douglas e família” - “Homenagem da Paramount Picture” - “Dos Amigos da Paris Filmes” - “Lembrança da Cinédia” - “Ao Grande Amigo Joaquim, uma pequena homenagem de Erich von Strohein”- “Ao Saudoso Companheiro, minhas homenagens. Jeanne Moreau” - “Ao Inesquecível Amigo, o nosso abraço. John Wayne e família” - “Ao Querido Sabugo, os carinhos saudosos de Greta Garbo”...

Janeiro de 1981 - Manoel Gomes Júnior

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