quinta-feira, dezembro 22, 2005

Falando

Mais sobre o Falar. Desta vez, duas resenhas críticas feitas por estudantes de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte, em novembro de 2005.

Falar Maldito
Falar, todos falam. Falam dos outros, falam de si. Falam disso, falam daquilo. Ouvir, poucos ouvem. Ouvir dói. Ouvir choca. Por isso, “Falar”, primeiro romance de Edmundo de Novaes Gomes, causa estranhamento. Mexe nas entranhas.
Antes de tudo, o livro, Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana 2003, é uma colagem. A personagem central, Ana, não é um retrato, mas uma montagem de vários retratos. Não é um rosto, mas restos de vários rostos. Assim, não é possível manter-se distante da narrativa, porque, num determinado momento, um pedaço seu compõe essa colagem.
O enredo do livro conduz a reações inesperadamente esperadas. É como se o autor desse as mãos para o leitor e o conduzisse durante a trajetória do “Falar”. Edmundo sabe onde e como tocar o leitor. Constrói personagens para você amá-los e odiá-los. O tempo todo, Novaes bate e sopra. Palavras no diminutivo para situações pesadas, como o estupro de Neguinha, uma criança com 6 ou 7 anos. Um estupro feito pelo próprio pai da menina, um homem de características apaixonantes e gestos reprováveis.
Assim, o autor grita absurdos e sussurra palavras de amor. E, quando você deseja soltar as mãos e correr dali, o autor a segura ainda mais forte. É impossível se desvencilhar. Tapar os ouvidos. É impossível não querer falar. Daí vem o mal estar: você está fadado a ouvir.
O assunto é o mesmo. Amor e ódio. A linha tênue que os separa. E, nesse ponto, o autor é peculiar. Ousa ir além. Transpõe a linha. Discute convenções, velhos hábitos, fala de tabus. Duvida de Deus (aqui, talvez fosse cabível dizer deus, assim, minúsculo). E o que choca não é o estupro. Não é a putaria. Não é o incesto. Não é a bebida. Não é o suicídio. Tampouco o dialogo surreal entre o suicida e a protagonista Ana. O que choca é a linguagem: nua e crua. A linguagem que corta, que esmiúça, que, nas palavras de Ana, “te fode no útero”.
A linguagem é ritmada. Tem vida própria, é personagem da trama. São frases curtas. Diálogos em textos corridos. Nada de parágrafo e travessão. Um vômito frenético e desesperado que não comporta regras da língua portuguesa. “Falar” assume uma língua própria. A língua do íntimo, do pessoal. A língua ainda não falada e sempre subentendida. Há grandes sacadas em pequenas palavras que só olhos atentos percebem. Daí a possibilidade de várias leituras para “Falar”. Pode ser um livro de auto-ajuda, um livro de ficção, um livro de romance, um livro de loucura. Mas sempre um livro de linguagem. Tudo está solto e preso na identificação do leitor com Ana.
Nessa história, os diabos são anjos. Os demônios habitam o céu num dia em que Deus não está lá. O caos põe ordem. Porque é preciso matar. Ana, ao falar, justifica a morte, pede licença para fazê-lo. Mas falha. Porque, para matar, é preciso morrer. O amor pode ser um sentimento solitário que, na falta do outro, se preenche de lembranças. E a morte, talvez, mas só talvez, seja a chave para sair do mundo de “Falar”.
-Thaís Palhares

Um novo modo de falar
Quem está acostumado com livros tradicionais, que obedecem a uma seqüência linear de fatos, que mantêm uma postura formal na linguagem, aperte os cintos antes de começar a ler Falar. Vencedor do Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana 2003, o livro de Edmundo de Novaes Gomes é uma narrativa ensandecida, delirante e capaz de deixar os vovôs do século passado de queixo caído. O autor não mede palavras ao tratar de questões como incesto e é frio ao relatar detalhes. “Depois, o Noca tirou o pau do pai da menina pra fora e foi ajeitando, a menina mexendo, o pinto entrando. O pinto do Noca entrando na bundinha da filhinha dele e a gente não podendo ver mais nada...”.
Há muito tempo, o ser humano busca entender seu comportamento frente a outras pessoas. Ana, a protagonista e narradora da história, é o som e a fala das muitas vozes que ecoam a cada página. Como no mito de Eco, uma linda ninfa, amante dos bosques e das montanhas, mas que, no entanto, tinha um grande defeito: falava demais e costumava sempre dar a última palavra em qualquer conversa da qual participava. Na narrativa, Ana também dá a ultima palavra ao vomitar tudo o que lhe amargura a alma. No mito, Eco passou a viver nas cavernas e montanhas, sem se alimentar nem ter qualquer tipo de contato com outros seres e seu corpo foi se definhando até desaparecer completamente, restando-lhe apenas o eco de sua voz, que continuava a responder a todos que a chamavam, conservando o costume de dizer sempre a última palavra. Na trama, a Ana tenta matar o amor, mas definha ao perceber que ele continua vivo.
Falar é um romance de amor e ódio em que o narrador fala, fala, fala e fala. E o que é o ódio senão o amor que adoeceu? Nas entrelinhas, o recado que se percebe é que o livro nada mais é que uma metáfora. Uma metáfora sobre o amor. Um amor doentio, imortal, louco. Um amor que, para acabar, precisa morrer. Porque, ainda que se mate o ser amado, o amor continuará existindo. Para que um amor morra de verdade, é preciso morrer com ele.
Em algum momento, você se identifica com a história. Não há como fugir disso porque, ainda que seja muito louca, a narrativa mexe com nossas entranhas, mexe com naquelas “coisas” que um dia pensamos, mas não tivemos coragem de falar.
Falar, uma viagem e tanto para muitos, uma verdade para outros. Não há como enquadrá-lo numa categoria. É difícil não se assustar, não se chocar com os tabus sendo ditos ali de uma maneira tão simples, normal, como se fizessem parte da vida. E fazem. E talvez aí esteja o barato de tudo. Uma mistura de palavrões, orgias, putarias, diálogos com um deus falido e um suicida. Um elo entre comportamentos e amores. Um livro complexo, único.
-Patrícia Coelho Caldas

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