segunda-feira, setembro 05, 2005

Íssimo

Ainda bem que Fernando Pessoa existe. Outro dia até mandei esse poema pra uma pequena que adora chocolates e que, como eu, também é dada à metafísica. Trata-se de um Álvaro de Campos. E me traduz bacaninha.

(9-10-1934)
O que há em mim é sobretudo cansaço -

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço asssim mesmo, êle mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amôres intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas tôdas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Êste cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum dêles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para êles a vida vivida ou sonhada,
Para êles o sonho sonhado ou vivido,
Para êles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

4 comentários:

Patricia Carvalho disse...

FinÍSSIMO o seu blog Ed! Tal como o dono! Adorei!!! Ainda quero ler tudo com calma para apreciar sua arte. Achei o texto da Floricultura maravilhoso (foi o primeiro q escolhi pra ler) - vou divulgá-lo!
Bjox Patricia

Thais disse...

PUTA QUE PARIU...
e puta que pariu de novo...
muita descoberta te descobrir...
beijos da sua amiga de espinho e flor

Anônimo disse...

Também cansada, Ed. Mas não é do que vc tá pensando.

Anônimo disse...

CANTIGA DO NENO DA TENDA

Bos Aires ten unha gaita
sobro do Río da Prata,
que a toca o vento do norde
coa súa gris boca mollada.
¡Triste Ramón de Sismundi!
Aló, na rúa Esmeralda,
basoira que te basoira
polvo d’estantes e caixas.
Ao longo das rúas infindas
os galegos paseiaban
soñando un val imposibel
na verde riba da pampa.
¡Triste Ramón de Sismundi!
Sinteu a muiñeira d’agoa
mentras sete bois de lúa
pacían na súa lembranza.
Foise pra veira do río,
veira do Río da Prata.
Sauces e cabalos múos
creban o vidro das ágoas.
Non atopou o xemido
malencónico da gaita,
non víu o imenso gaiteiro
coa boca frolida d’alas;
triste Ramón de Sismundi,
veira do Río da Prata,
víu na tarde amortecida
bermello muro de lama.